sexta-feira, 8 de abril de 2016

APAGAR INCÊNDIO ANTES DE ELE COMEÇAR

 
Síndico bom apaga o incêndio antes de ele começar

Não brinque com fogo. Saiba como agir e que equipamentos são necessários para garantir a segurança do prédio e dos moradores
No dia 26 de fevereiro de 2004, o imponente prédio da Eletrobrás, no início da Avenida Rio Branco, pegou fogo em pleno carnaval. Sem portas corta-fogo e equipamento de incêndio adequado, as chamas, que começaram com um curto-circuito no 17º andar, rapidamente subiram mais cinco andares, espalhando pânico e deixando um rastro de destruição. Por sorte, não houve vítimas. Foram 14 horas de desespero que produziram um dos maiores incêndios da cidade nos últimos anos. O edifício não virou cinzas, mas muito se perdeu. O trânsito parou por dias seguidos no Centro da cidade e as imagens daquele incêndio entraram para a história do Rio. Depois daquele dia, a legislação de prevenção foi profundamente alterada pelo governo do estado. Passados sete anos, o atual administrador do condomínio, Carlos Henrique Lopes Raposo, se orgulha de o lugar ter dado a volta por cima, tornando-se referência em matéria de prevenção e de ações de planejamento para combate a incêndios.
Consciente de seu papel nas mudanças implantadas, Carlos Henrique rende-se a um velho clichê: “Há males que vêm para o bem.” Hoje o prédio tem as tais portas corta-fogo - fundamentais para criar verdadeiras cápsulas de segurança quando o fogo começa a se alastrar -, uma rede de sprinklers - que são acionados automaticamente se é detectado o aumento da temperatura ambiente -, roupas de combate a incêndio dignas de filmes de ficção (cada uma delas chega a custar R$ 15 mil) e placas fluorescentes, que indicam as saídas de emergência mesmo em caso de apagão.
“Contamos com uma brigada de incêndio formada por seis profissionais que fazem plantão de 24 horas. Não se trata de luxo. Às vezes, o incêndio evolui com tanta velocidade que uma tragédia pode ocorrer enquanto se espera a chegada dos bombeiros. É preciso ter agilidade e técnicos qualificados munidos do equipamento necessário para fazer um trabalho eficiente. Hoje eu tenho aqui no prédio a mesma maca usada pelo Corpo de Bombeiros e o mesmo aparelho de oxigênio. Está ‘show de bola’”, diz Carlos Henrique, acrescentando que o susto foi o grande propulsor da reviravolta experimentada pelo prédio.
As novas regras estabelecidas pelo Corpo de Bombeiros, por sua vez, visam dar mais segurança a todos os prédios da cidade. Antes construções erguidas até 1976, como o espigão da Eletrobrás - onde também funcionavam dois bancos – estavam livres de cumprir certas exigências. Agora é diferente, todos têm que se adequar. Além disso, os itens obrigatórios deixaram de seguir um cardápio predefinido. Agora eles são estabelecidos, caso a caso, de acordo com a realidade de cada lugar, a freqüência de pessoas e, principalmente, o material que é armazenado no local. Em geral, os projetos são submetidos a um crivo mais rigoroso em prédios comerciais. Também costumam ser mais caros. Como abriga cerca de 2.500 pessoas que trabalham em seus escritórios e recebe, pelo menos, 1.200 outras que circulam por ali diariamente, o prédio da Eletrobrás, de 22 andares, exigiu investimentos que passaram de meio milhão para ficar dentro a lei.
Em prédios residenciais, esse custo tende a cair. O mercado, por sua vez, está cada vez mais competitivo e oferece opções, das mais sofisticadas às mais simples, sem prejuízo da segurança. Gerente técnico e comercial da Atac Fire, Antônio Neumaro explica que todos os prédios, por lei, têm que ter um plano de segurança contra incêndio e pânico, obedecendo às normas previstas no Código 897 de 1976. Segundo ele, a empresa contratada para desenvolver o projeto deve ser credenciada pelo Corpo de Bombeiros. É ela que vai dimensionar o tipo e o porte do extintor mais adequado a cada local, levando em conta as características do condomínio. Os incêndios obedecem a classificações: do tipo A) materiais como madeira, papel e tecido; do tipo B) produtos inflamáveis como gasolina e querosene; do tipo C) equipamento elétrico; e do tipo D) metais inflamáveis. Para cada uma dessas classificações, há um extintor específico: de água, de CO2 (gás carbônico) e de pó químico.
“Por exemplo, se o prédio tiver predominância de itens inflamáveis, como tecido, papel e madeira, é melhor usar extintor de água. Em caso de incêndio numa biblioteca, se você usar o extintor de CO2 ele vai momentaneamente apagar as chamas, mas elas voltam. O calor que está embaixo do papel vai fazer o incêndio recomeçar. Todo corpo que chegou a mil graus pode reacender”, explica Neumaro.
O especialista alerta, porém, que podem ser utilizados vários tipos de extintor em um mesmo prédio. É até muito comum e fácil de entender os motivos. Em um condomínio há, por exemplo, casa de força, que concentra grande quantidade de material elétrico, e administração, que reúne muito papel. Sendo assim, os síndicos devem ter modelos variados de extintores, voltados para atribuições específicas. Não adianta ter equipamento inadequado que, além de não produzir o efeito esperado, que é conter o incêndio, ainda pode aumentar os prejuízos materiais. Por isso, nunca se deve dispensar a figura do bom técnico. Apesar das muitas semelhanças, os extintores de CO2 e de pó químico nem sempre funcionam da mesma forma. É preciso muito cuidado. Em casos de equipamento sensível, como computadores, o melhor é o de CO2 porque o de pó químico pode danificar as placas eletrônicas.
As modernas redes de sprinklers são cada vez mais usadas no combate a incêndios. Cada sprinkler é instalado num ponto estratégico e, quando a temperatura atinge 68 graus, ampolas de mercúrio estouram fazendo a água jorrar. São fundamentais para garantir o combate às chamas mesmo em condições em que já não é seguro para o ser humano se aproximar. Há ainda os hidrantes e as mangueiras, que também são itens quase obrigatórios em prédios com mais de três andares. Mais uma vez, um projeto, desenvolvido por profissional treinado, é que vai definir a distância entre eles e a extensão das mangueiras.
Os preços dos projetos variam muito, segundo o tipo de equipamento e a quantidade que será utilizada. Um prédio de oito andares poderá desembolsar entre R$ 50 e R$ 80 mil. Se forem incluídos os sprinklers – aproximadamente quatro pontos por andar -, o custo sofre um acréscimo de R$ 50 mil.
Dono da PRL, empresa atacadista que vende equipamento para consultorias especializadas em projetos de combate a incêndios, Paulo Roberto Ribeiro diz que, nos últimos anos, nenhum evento foi tão determinante para o setor quanto o incêndio no prédio da Eletrobrás.
“Os prédios têm um prazo para se adequarem de cerca de dois anos. Algumas construções antigas, pelas características arquitetônicas, podem ter alguma dificuldade por falta de espaço, às vezes, para instalar uma rede, por exemplo. Nesse caso, deve-se procurar orientação profissional. Mas o fato é que o caso chamou a atenção para a questão da segurança. Em geral, as pessoas tendem a achar que nunca vai acontecer com elas, o que, infelizmente, não é verdade”, observa.
Síndico de um condomínio em Botafogo, Geraldo José Ribeiro de Freitas resolveu que iria fazer a coisa certa. Convencido por uma longa vida de trabalho na área de vendas de que conhecimento é fundamental, ele decidiu se inscrever num curso de brigada de incêndio para dar uma forcinha para o porteiro do prédio, estimulando-o a frequentar as aulas e, por tabela, aprender um pouco mais sobre o assunto. Pelo bairro, são comuns histórias de curto-circuito em condomínios que acabam em incêndios bobos, que nunca deveriam ter ocorrido não fosse por puro descuido ou mesmo ignorância. Geraldo acha que empregou muito bem R$ 300 num curso, promovido pelo Secovi-Rio, que fez junto com o funcionário do prédio.
“Não é apenas um curso teórico. Tem uma parte prática, muito intensa. Já sou um senhor e, aos 69 anos, confesso que tive dificuldades com alguns exercícios feitos num calor de quase 40 graus. Meu objetivo era apoiar o porteiro para que ele se sentisse mais à vontade. Valeu a pena. Aprendemos tudo que se possa imaginar sobre ações em situações de pânico. Às vezes, os bombeiros levam 10, 15 minutos para chegar, o que pode fazer toda a diferença no decorrer de um incêndio”, acredita Geraldo, afirmando hoje se sentir plenamente seguro e capaz para agir em emergências dessa natureza. “Além de ter aprendido qual o extintor é mais adequado para cada tipo de fogo, fui treinado para manusear todo equipamento usado em caso de incêndio.”
Em decorrência do curso, o condomínio, de pequeno porte, com seis andares e 12 apartamentos, deu um upgrade em seu arsenal de combate a incêndio. Nada demais. Porém, Geraldo sabe que são pequenos detalhes que podem fazer toda a diferença. Sem gastar uma fortuna, muito pelo contrário, ele aumentou as mangueiras usadas no prédio, que tinham 20 metros e passaram a ter 40, chegando a toda a área comum, e ainda comprou extintores novos capazes de atender a todas as classificações de incêndio.

Corpo de Bombeiros alerta: síndicos devem fazer a sua parte
Cuidados preventivos; equipamento básico de combate a incêndios em edificações; planos de emergência e de fuga; treinamento e orientação dos moradores e formação de brigada. Essas são algumas das orientações feitas pela Diretoria Geral de Serviços Técnicos do Corpo de Bombeiros para os condomínios do Rio. O órgão alerta para o fato de que incêndio em prédios é mais comum do que se imagina. Muitos não chegam a ser noticiados porque são controlados antes de ganharem as páginas dos jornais. Não basta ter toda a infraestrutura. É importante a conscientização dos síndicos para a necessidade de manutenção do equipamento de combate ao fogo, como a verificação dos extintores e da canalização preventiva, das condições dos registros, das mangueiras e das eletrobombas de pressurização dos sistemas. Outra sugestão é que o condomínio realize palestras para os condôminos, cujo tema seja prevenção de incêndio, e promova treinamentos, inclusive ensinando sobre o uso de extintores, por exemplo. Nada muito complicado. Os administradores devem, pelo menos anualmente, fazer uma revisão nos extintores existentes nos imóveis sob sua responsabilidade. Por meio do selo de identificação, podem conferir a data de recarga e, com o manômetro, saber se o equipamento está com sua capacidade de carga dentro dos limites de utilização. Também é muito útil fazer um mapeamento desses itens, que, assim, podem ser facilmente localizados em caso de emergência.
Segundo os bombeiros, as causas mais frequentes de incêndio em prédios comerciais são pontas de cigarros atiradas nas latas de lixo, sobrecarga nas tomadas elétricas (as famosas extensões) e até o esquecimentode aparelhos ligados, como cafeteiras, após o término do expediente. Já nos prédios residenciais, os problemas estão mais relacionados com o esquecimento de panelas no fogo, prática religiosa com utilização de velas, criança que manuseia fósforo ou isqueiro, instalação incorreta de aparelhos eletrodomésticos e pessoas que acabam pegando no sono com o cigarro aceso. Embora cada prédio exija equipamento específico, os bombeiros explicam que há itens básicos, como extintores portáteis de incêndio, que devem estar em conformidade com a classe de incêndio - se para material inflamável, elétrico ou papel, por exemplo - e hidrantes que compõem a canalização preventiva - geralmente instalados em local visível, equipados com até duas mangueiras e o respectivo esguicho.

 
 
 

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